Povo Pankararu retoma celebração tradicional após pandemia

Em razão da pandemia do novo coronavírus, a trezena de Santo Antônio ficou suspensa por dois anos; na última década, tradição vem sendo resgatada pela nova geração do território indígena, localizado no município de Tacaratu, no Sertão do São Francisco

qui, 09/06/2022 - 09:31
Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens Dezenas de homens carregam o pau da bandeira de Santo Antônio. Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens

Ubirajara Pankararu sorri muito pouco e porta um facão na cintura. Em meio à euforia dos jovens da aldeia de Brejo dos Padres, no município de Tacaratu, sertão do São Francisco pernambucano, ele impõe respeito para garantir a realização dos ritos e tradições que caracterizam o trezenário de Santo Antônio. São 6h do dia 1 de junho, que marca a abertura dos festejos no território, e um grupo de cerca de cinquenta homens se prepara para entrar na mata em busca do pau no qual a bandeira do santo será hasteada.

“Essa tradição eu resgatei faz mais ou menos dez anos. Quando eu tinha sete anos, meu pai e vários amigos faziam. A gente está dando continuidade no que os mais velhos deixaram. Tem rapazes aqui que começaram pequenos e continuam vindo até hoje”, relata Ubirajara, que ocupa a função de vice-presidente da Comissão Indígena Pankararu.

Ubirajara Pankararu, um dos responsáveis pela retomada da tradição. (Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens)

Diante do frio e da baixa neblina que contorna a subida da serra, o grupo é encorajado por doses de “giroca” (cachaça) e pela banda de pífano e zabumba, que entoa baiões, cocos e torés. Engana-se, contudo, quem pensa que hits musicais mais recentes ficam de fora do percurso. O repertório inclui até canções de reggae e pagode.

“A gente sempre está atualizando o repertório. Toco pife desde os 14 anos, assim como meu avô e meu bisavô, e participo disso desde pequeno. Um dia, vão estar aqui meus filhos e sobrinhos. Fico muito feliz de saber que essa festa está sendo preservada”, diz o pifeiro Gillierbe Pankararu, de 21 anos.

Gillierbe vem de uma família de pifeiros. (Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens)

Com a chegada do grupo à mata fechada, tem início a escolha do pau da bandeira. Dono de um fôlego invejável, Gillierbe mantém uma parte dos participantes entretida com a música, enquanto a outra passa a se revezar no machado, com o objetivo de derrubar a árvore, que também é forçada em direção ao chão com a ajuda de cordas. “Esse processo pode levar uma hora ou um dia inteiro. Depende da vontade Deles”, explica Ubirajara, com o dedo indicador apontado para cima.

Aproximadamente três horas se passam entre a saída e o retorno do cortejo. Tempo suficiente para que Wesley Pankararu produzisse uma indumentária tradicional, com pedaços de palha de licurizeiro retirados da floresta. “Essa palha é muito importante para nós, é através dela que se realizam promessas aos Encantados. Me sinto muito gratificado de usar essa palha, porque, com ela, estou representando nosso povo na festa do padroeiro”, celebra.

Wesley Pankararu utilizando sua indumentária de palha de licurizeiro. (Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens)

Simpatia

Após exaustivo revezamento entre pelo menos 30 homens, o pau da bandeira é entregue, diante da Igreja da aldeia. Enquanto alguns participantes aproveitaram para fazer uma refeição ou beber água, outros retiram fragmentos do tronco, que são misturados com doses de cachaça. Para os Pankararu, a tradição serve para atrair um casamento. “Vou beber porque atualmente estou namorando, mas quero me casar com minha namorada”, comenta Wesley.

Trezena

A trezena de Santo Antônio é celebrada no território Pankararu desde 1910. Tradicionalmente, o pau da bandeira era mantido de pé até o dia 13 de junho. A cada dia de trezena, três famílias são responsáveis por organizar café da manhã, almoço e jantar. “Agora, a gente está retirando o pau no dia 24 de junho, para usar ele como parte da fogueira de São João. Nosso respeito por isso aqui é muito grande. Esse resgate é um mérito de um trabalho coletivo", completa Ubirajara.

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