Tópicos | Caos brasileiro

Os acontecimentos do cenário político brasileiro ultrapassaram as barreiras nacionais e têm causado impactos estrangeiros. Em conversa exclusiva com LeiaJa.com, o ex-parlamentar europeu, Wolfgang Kreissl-Doerfler, comentou a visão tida do Brasil para além dos muros do país. Ao participar da série Entrevista da Semana, o alemão, que trabalhou seis anos em território brasileiro, defendeu as 'Diretas Já', apontou a necessidade do combate à corrupção e destacou a importância da participação popular nas mudanças que atualmente o país exige. 

Kreissl-Doerfler esteve no país de 1979 a 1985 exercendo a função de funcionário da ajuda do Serviço de Desenvolvimento Alemão para o Brasil (Deutscher Entwicklungsdienst). Com isso, as fases vividas na política nacional foram acompanhadas de perto pelo também ex-ministro europeu, mesmo tendo voltado para a Alemanha. 

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Quanto ao cenário atual Kreissl-Doerfler expõe sua opinião: “O Brasil está vivendo agora um caos visto, especialmente, quando eu estou discutindo com os responsáveis da indústria da Áustria, como na Baviera alemã. Depois de 20 anos no parlamento europeu, tenho contato com a alta cúpula e todos estão dizendo que precisamos de uma época de tranquilidade para poder investir no país e não deixar os menos favorecidos na rua”. 

Apesar disso, ele aponta que as mudanças podem chegar através dos apelos populares. Para o ex-ministro europeu, a renovação da política é necessária, mas a união do povo é a chave para alavancar esta mudança. “Vi que há demonstrações do povo, em vários grupos, exigindo ‘Diretas Já!’. Essa foi a mesma frase de 1984 e 1985 quando as pessoas também foram às ruas e exigiram. Na minha visão, este é quase o único caminho e as pessoas podem participar agora. Por outro lado, é importantíssimo combater a corrupção de todos os lados. Também existem políticos e empresários que não são corruptos”, destacou. Acrescentando a necessidade de “montar uma nova cultura de negociações, assim como uma reforma no Congresso”. 

Quanto à legislação em vigor no país, o ex-ministro acredita termos uma das melhores diante do mundo. “A Constituição do Brasil é uma das melhores do mundo, mas muitas pessoas não a respeitam”, diz, frisando que “é preciso uma renovação de cima pra baixo e de baixo pra cima. Isso também significa mudar o sistema, inclusive ensinar nas escolas como um Estado deve funcionar”.

Mesmo com armas contundentes dentro da nossa Constituição, Wolfgang também apontou existir a intolerância entre os brasileiros. “[Durante a votação do Impeachment] Eu vi os embates no Congresso, em Brasília, onde nos discursos a religiosidade foi misturada e exposta muitas vezes. Nunca vi algo igual, nada tão horroroso. Não há respeito à opinião do outro. As pessoas precisam aprender a trocar ideias sem derrubar a do outro. Você pode ver isso no Congresso, nas cidades, nas ruas. O nível é tão baixo que o povo fica assustado”, disparou. 

Ainda que o cenário seja desanimador, segundo ele as mudanças podem vir do próprio povo. “O Brasil tem a capacidade de chegar a um patamar de organização como a Europa. Durante debates em universidades do país, eu tive contato com muita gente e existem pessoas muito bem educadas, sabidas, que são capazes de retomar a seriedade do Brasil. Além disso, tem muitos artistas envolvidos na política e que possuem muito conhecimento. Acho que os responsáveis pelo governo deveriam buscar opinião das pessoas em favor de renovação do Brasil e não somente proteger os grandes latifundiários. É preciso retomar e reforçar o capital do povo”, observou. 

Esperançoso, o ex-parlamentar diz poder ver o Brasil sair dessa crise, “mas também precisa de uma nova definição do que quer ser daqui a cinco, dez anos". "Faltam metas no país, pelo menos do governo atual e as pessoas de baixa renda vivem com medo, sem saber se terão como comer, como pagar seus medicamentos, se os filhos terão uma boa educação”, destacou.

Como exemplo a ser aplicado ao Brasil, Wolfgang cita “o grande sucesso da Alemanha, a reforma realizada na década de 60, onde todas as pessoas foram determinadas a participar dos bens do país e isso deveria ser organizado, Estado por Estado, no Brasil também”.   

Apesar das reformas, a população precisa ser pensada e corrupção banida

Kreissl-Doerfler cita os programas sociais como sendo o principal sustento de algumas famílias. Diante disso, quanto à manutenção dessas ações, ele conta que “se eu tiro programas da mesa, eu tenho que colocar outros no lugar. Luz para todos, moradia para todos, uma melhor infraestrutura, um transporte público que mereça essa palavra e tenha um preço que quem trabalha possa pagar. Poderia copiar as experiências da Alemanha e combater a corrupção”. 

O ex-ministro ainda conta que em países europeus, a realidade da corrupção também está presente. “Isto também existe na Alemanha e Áustria, mas é preciso um juizado que possa trabalhar de forma independente e respeitá-lo. Isso eu não posso ver agora de forma suficiente no Brasil, como no juizado de Sérgio Moro”, criticou.

Por fim, ele frisou a necessidade de combater a corrupção para o sucesso do país e ressalta a urgência de novas eleições. “No Brasil, os ministros foram trocados por estarem envolvidos em corrupção, mas os que assumiram são incapazes de resolver os problemas do país, por conta disso, as eleições precisam ocorrer de forma urgentíssima e limpa”.

Tendo a visão sobre o cenário e havendo conhecimento do país por já haver trabalhado em território brasileiro, Wolfgang apontou que os esforços para auxiliar o Brasil podem ser canalizados, pois a Europa está disponível a ajudar.

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