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Anunciada no início deste mês, a nova categoria da natação, aberta para atletas transgêneros, terá suas primeiras provas em outubro, durante a disputa da etapa de Berlim da Copa do Mundo de Natação. Serão disputadas as provas de 50 metros e 100 metros, em todos os estilos de braçada.

De acordo com World Athletics, federação responsável pela organização das competições, o requisitos detalhados para participação e mais informações sobre o processo estarão disponíveis em breve. A única especificação dada neste momento é que os nadadores e nadadoras terão a flexibilidade de participar individualmente, por clube ou como membros de federação nacional.

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"Quando a World Aquatics instituiu sua Política de Elegibilidade para as Categorias de Competição Masculina e Feminina, nos comprometemos a explorar a criação de uma categoria aberta", disse o presidente da entidade, Husain Al-Musallam . "Fiel à nossa palavra, uma equipe de especialistas trabalhou diligentemente para tornar isso uma realidade. Gostaria de agradecer a todos aqueles que ajudaram a World Aquatics a oferecer esta oportunidade", completou.

Desde o ano passado, a discussão está na mesa da entidade. A World Aquatics havia proibido a participação de atletas transexuais em grandes eventos, argumentando que a decisão preservava "a proteção e a justiça" nas competições femininas de natação.

O debate esquentou em março de 2022, quando Lia Thomas foi campeã dos 500 metros livres da liga universitária americana. Ela vem se destacando no circuito desde 2021 com resultados surpreendentes, o que deu início a questionamentos sobre a participação de atletas transgêneros em provas femininas.

A presença de atletas transgêneros na Olimpíada de Paris-2024 está condicionada às regras a serem adotadas pelas federações esportivas internacionais. Nesta quarta-feira, a ministra do Esporte e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris-2024, Amélie Oudéa-Castera, afirmou que esta é uma questão complexa, mas que não irá intervir na decisão das entidades.

Em entrevista à rádio France Info, Amélie comentou sobre a recente decisão da World Athletics, a Federação Internacional de Atletismo, de excluir transgêneros das competições femininas. Para ela, estudos sobre o papel da testosterona no desempenho esportivo podem esclarecer os pontos controversos do debate.

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"É uma questão difícil e que está em evolução, na qual navegamos entre duas demandas, a inclusão e o respeito à igualdade esportiva", disse Amélie, em entrevista à rádio France Info. "Nem todos estão nessa linha. O progresso científico vai esclarecer a decisão desses atores."

O Comitê Olímpico Internacional (COI) renunciou no final de 2021 a estabelecer diretrizes uniformes quanto aos critérios de participação de atletas intersexuais e transgêneros. Assim, deixou o caminho livre para a decisão das federações internacionais. A participação do atleta dependerá do que a sua respectiva modalidade estabelece.

Na Olimpíada de Tóquio, em 2021, a levantadora de peso neozelandesa Laurel Hubbard fez história ao se tornar a primeira mulher abertamente transgênero a participar de um evento olímpico. Ela atendeu aos critérios de classificação, que exigiam um nível de testosterona abaixo de 10 nmol por litro por pelo menos 12 meses.

A Assembleia Legislativa de São Paulo discutiu nesta terça-feira (11) o projeto de lei 346/2019, de autoria do deputado estadual Altair Moraes (Republicanos), que estabelece que "o sexo biológico será considerado como critério definidor do gênero de competidores em partidas esportivas oficiais no Estado de São Paulo". Após um longo debate, a votação foi adiada por falta de quórum.

"Nós não estamos falando de comportamento ou opção sexual, estamos falando de biologia e fisiologia", disse Altair Moraes, defendendo-se das críticas de que seu projeto é excludente. O deputado Tenente Coimbra (PSL) falou sobre o projeto durante a Sessão Extraordinária. "Estamos falando de mulheres que estão sendo prejudicadas no esporte", disse.

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Pouco depois, ele foi rebatido pela deputada Erica Malunguinho (PSOL). "À medida que projetos excludentes avançam, projetos afirmativos não avançam aqui. É um recado político de que pessoas trans não são bem-vindas nesse lugar, pois é uma população que não está no esporte. Cerca de 90% está na prostituição", afirmou.

Jorge Caruso (MDB) lamentou a opção da Casa por esse projeto. "Não dá orgulho para essa Casa votar esse projeto. Temos de deixar para quem entende e a decisão deve ser das federações esportivas. É inadmissível que a gente entre em uma seara tão delicada e tão perigosa. Esse projeto instiga as diferenças e maltrata pessoas", lamentou.

Duas deputadas também se manifestaram sobre o PL 346/2019. A primeira foi Beth Sahão (PT). "Isso é um retrocesso para uma Assembleia Legislativa que se diz a mais importante da América Latina", comentou. A Professora Bebel (PT) foi na mesma linha. "Não pode haver restrição para a prática esportiva, ainda mais se está dentro das normas. Não pode tratar a comunidade trans de maneira segregada. Tem de valer o respeito à diversidade."

Caso seja aprovado e sancionado pelo governador João Doria, atletas transexuais não poderão mais competir em São Paulo. Isso vai tirar a jogadora transexual Tifanny Abreu, do Sesi Vôlei Bauru, de algumas partidas da Superliga feminina de vôlei, por exemplo. A atleta só poderia disputar os jogos fora do Estado de São Paulo e não poderia atuar nem diante de sua torcida em Bauru.

Para Floriano de Azevedo Marques Neto, professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o projeto é "sem pé nem cabeça" e, caso não seja vetado pelo governador João Doria, a lei será questionada no Supremo Tribunal Federal. "Se as entidades esportivas, e nossa Constituição fixa a autonomia da Justiça Desportiva, admitem essa participação, não cabe à lei mudar. Essa matéria é reserva de competência nacional", avisou o jurista.

NOVAS REGRAS - A discussão na Assembleia Legislativa de São Paulo ocorreu no mesmo dia que a União Ciclística Internacional (UCI) divulgou suas novas regras de elegibilidade para atletas trans, encorajando-os a participar do esporte. Quem quiser competir na categoria feminina, entre outras coisas, terá de ter os níveis de testosterona abaixo de 5 nanomol por litro de sangue. Na masculina é livre.

O documento da UCI surge após uma reunião que foi realizada em Lausanne, em 19 de outubro, com a participação de diversas federações esportivas internacionais junto com especialistas e representantes de atletas transgêneros e cisgêneros. O intuito foi garantir condições de igualdade nas competições organizadas pela entidade.

A norma entrará em vigor em 1º de março e, além da taxa de testosterona no corpo, a atleta trans deve provar que está abaixo dessa taxa durante 12 meses antes de sua participação esportiva. Se não mantiver os níveis de testosterona, a esportista estará sujeita a sanções que vão desde punições até multas ou desqualificação.

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