Tópicos | Emanuel Lubezki

O Regresso é um dos principais favoritos às categorias mais importantes do Oscar desse ano, mas sofre do mal de aproximadamente metade dos indicados, como sempre acontece: são boas obras, mas há dúvidas sinceras quanto serem as melhores daquele período, pois certamente chegaram ali através de algum prestígio que seus realizadores têm junto aos votantes da Academia, ou então, de um marketing poderoso realizado dentro do conjunto destes mesmos votantes. Não à toa, vemos ano a ano filmes de caráter duvidoso configurando as principais listas de indicados ou mesmo vencendo tais categorias.

Não me entendam mal. O Regresso é uma produção cercada de méritos, daqueles que engrandecem a sétima arte. De fato, Tom Hardy e Leonardo DiCaprio revelam suas monstruosas capacidades interpretativas aqui. O fraco vilão Bane, de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, não mostrou metade do que  Hardy era capaz de fazer com um bom vilão em mãos. Em muitos trechos, sentimos ódio concreto do personagem, ao passo que sofremos com o batedor Glass, vivido por DiCaprio, cujo sofrimento transcende a tela.

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A trilha sonora contida do filme é outro aspecto que busca firmar a coerência daquele universo cru e cruel, surgindo pontual e abrindo espaço para o silêncio, quando necessário. E é preciso aplaudir a audácia do roteiro em colocar em pé de igualdade raças distintas, como brancos conquistadores e índios que tentam evitar a extinção do seu povo, sem jamais julgar estes ou aqueles como certos ou errados. É uma realidade que simplesmente existiu e reverbera até hoje; assuma o lado que desejar a partir do que se vê.

Porém, então, começamos a analisar os poréns de O Regresso, e estes são muitos. De cara, não é difícil se deixar enganar pela belíssima direção de fotografia de Emmanuel Lubezki. Ela sabe quando buscar a luz e quando evitá-la, e sabe brincar com todo o cenário hiper realista que existe a sua volta, e talvez engane os mais incautos, contudo, aqueles que já tiveram qualquer contato com alguns dos filmes do diretor Terrence Malick, saberão que Lubezki cria lá as mesmas noções de luz, e de A Árvore da Vida podemos, inclusive, retirar planos inteiros que são repetidos quase que milimetricamente neste O Regresso.

Da maneira como a câmera se movimenta pelos sets, e já falarei sobre isto em um instante, o que fica claro para qualquer espectador mais atento e que conheça previamente os nomes de Malick, Iñarritu e Lubeski, é que a cadeira de direção do filme foi dada a este terceiro, totalmente inspirada nos trabalhos do primeiro, e a única coisa que podemos atribuir a Inarritu são os constantes travellings, que de tão exaltados, chegam a causar enjôos no público, que é atirado para fora da obra tão logo tais "andadas" da câmera deixam de ser sutis (problema compartilhado com a obra anterior do diretor, Birdman), e a falta de sutileza é tamanha, que há inúmeras cenas em que podemos perceber a steadicam tocar ou bater em atores, árvores ou objetos de cena.

Todavia, o que mais incomoda em O Regresso é sua duração extrapolada - a produção tem quase três horas, das quais muitas situações se repetem exaustivamente, quando já entendemos tudo o que se quer ser dito pela narrativa. Alguns dirão que não devemos desfazer a montagem de um filme, e que devemos julgá-lo por aquilo que ele é, e não pelo que pretendemos que ele fosse. É um argumento perfeito, se levarmos em consideração apenas a base do nosso contra-argumento. No entanto, para chegar a esta opinião, certamente julguei primeiro a obra como ela me foi apresentada, vi os excessos da montagem e percebi que ela assim não funcionava, para só em seguida apontar o que não funcionava e desencadear na posição de como e por quais razões O Regresso poderia ser um filme mais funcional. É um argumento lógico e não se pode chegar a um sem o outro. E o que não funciona? Ora, das primeiras vezes em que o protagonista sofre das intempéries do ambiente ao seu redor ou por causa dos que lhe perseguem, ainda estamos aflitos, porém, quando situações começam a se repetir, já sabemos que DiCaprio e seu Glass sobreviverão aquilo, assim como passaram pelas dez ameaças anteriores, e mesmo que não soubéssemos, o impacto se dilui. É a repetição de idéias e acontecimentos que leva à exaustão e afinamento do filme, como se este fosse manteiga e tivesse sido esticado em um pedaço muito grande de pão.

Além disso, chega o momento em que Iñarritu deixa evidente que quer ganhar mais um Oscar desesperadamente, quando insere inúmeras cenas que abusam do transcendental da situação vivida por Glass - relembrando a morte de seus entes queridos e tendo contato com estes - e que mais uma vez peca por repetir fórmulas já vistas em filmes de Terrence Malick. A diferença é que o diretor de To The Wonder sabe inserir tais passagens organicamente em sua narrativa, fazendo-nos até duvidar se fazem parte da realidade de seus personagens ou não, enquanto em O Regresso elas surgem cada vez que o protagonista desmaia, e assim sempre sabemos quando novas virão. E se não ficou claro, elas não acrescentam escopo ao background do "herói".

É muito esforço, é muito sangue dado, é o sofrimento atrás do sofrimento, é o movimento constante... São todas as fichas apostadas na tentativa de angariar mais algumas estatuetas douradas. E o filme? Bem, o filme está ali para justificar e dar base a estas tentativas, e o espectador é capaz de sentir isto quando já entendeu tudo com uma hora e meia de filme, mas percebe que há mais uma hora e dez pela frente.

O Regresso representa o mero formalismo da Academia, que se for justa, ignorará boa parte dos concorrentes, incluindo este, e dará seu prêmio máximo ao único e real campeão este ano, àquele que ousou a linguagem estética e narrativa do cinema e quebrou paradigmas que vinham se estabelecendo como status quo na indústria. Que o grande coroado da noite seja Mad Max - Estrada da Fúria e não embustes como este O Regresso.

 

Texto escrito pelo colaborador e crítico de cinema Caio Vianna do blog Zona Crítica, parceiro do Portal LeiaJá.

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