Tópicos | declaração universal dos direitos humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos - carta de princípios a ser seguida no mundo inteiro para garantir vida digna a todas as pessoas - completou 75 anos nesse domingo (10). O texto foi aprovado pela Organização das Nações Unidas (ONU), criada na época e ainda abalada pelos horrores da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, ainda é um desafio para muitos alcançarem os parâmetros estabelecidos pelo documento.  

“Se realmente existem os direitos humanos, por que não estão na prática? Por que não servem para todo mundo? Para o índio? Para os quilombolas? Cadê nossos direitos?! Onde foram parar?!”, questiona Gleide Farias, líder comunitária de Porto de Areia, favela que fica em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. “O direito está aí, que é para todos terem moradia digna neste Brasil, e é por isso que sou uma liderança.” 

##RECOMENDA##

Em Porto de Areia vivem cerca de mil famílias que convivem com falta de infraestrutura, saneamento, água e energia. A comunidade surgiu no início dos anos 2000, depois que as famílias perderam tudo em um incêndio em outra favela, no centro de São Paulo. A saída foi ocupar o terreno vazio entre uma antiga cava de mineração e um lixão. Lutar por direitos faz parte do cotidiano da comunidade, direitos que, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, já deveriam estar assegurados, de acordo com o compromisso firmado há 75 anos pelos países que integram as Nações Unidas, entre eles o Brasil. 

“É de primordial importância que tenhamos em mente o caráter básico desse documento. Não é um tratado. Não é um acordo internacional. Não é e não pretende ser uma declaração de lei ou obrigação legal”, declarou Eleonor Roosevelt no dia da aprovação do texto em 10 de dezembro de 1948. A ex-primeira dama dos Estados Unidos presidiu a comissão que elaborou a declaração. Coube a ela explicar o caráter do documento: não se trata de uma lei, mas de um compromisso. 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por 50 dos 58 países que integravam as Nações Unidas naquele momento. Oito se abstiveram e ninguém votou contra. 

Direitos

A declaração conta com 30 artigos. O primeiro garante que todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. O segundo explica que esses direitos não distinguem raça, cor, sexo, idioma, religião ou opinião política. Depois garante que todos têm direito à vida, à liberdade e à segurança, e que ninguém pode ser escravizado e nem ser submetido a tortura. Ninguém pode ser detido, preso ou desterrado arbitrariamente. E todos têm direito a julgamentos justos nos tribunais.

O texto também diz que as pessoas têm direito à propriedade e que os espaços privados não podem ser violados. Garante ainda que todos têm direito a uma nacionalidade, a circular livremente e eleger seus representantes e que, em caso de perseguição, de buscar asilo. Prevê ainda que as pessoas têm direito a se casar, desde que na idade adequada. Que o direito à liberdade de pensamento e religião é garantido, assim como à livre opinião e livre associação.

A declaração destaca que cada pessoa tem direito à segurança social, à cultura e às artes, à educação, ao trabalho livre e ao descanso, e a condições de vida adequadas com casa e comida que garantam a saúde e o bem estar. E determina como obrigação o respeito aos direitos dos outros seres humanos. 

Para todos e todas

“É uma declaração de princípios básicos de direitos humanos e liberdades que deve servir como padrão para todos os povos de todas as nações”, completou Eleonor Roosevelt. Mas nem todos conseguem ter acesso a esse padrão. 

“A gente mora numa comunidade. Cadê o direito à água? Cadê o direito à luz? Cadê o direito dos meus filhos, dos filhos dos meu vizinho de ter uma escola boa? Cadê? Onde foram parar esses direitos?”. As questões de Gleide mostram os desafios que não só o Brasil, mas o mundo todo, precisa enfrentar para fazer valer o documento.

Isso não significa, no entanto, que só porque nem tudo o que foi escrito virou realidade, a declaração não seja importante. Pelo contrário. “Eu acho que a gente tem que entender, em primeiro lugar, que direito não é algo em essência. Direito é uma conquista coletiva ou é um processo coletivo de reconhecimento. Às vezes, a gente pensa que o direito é algo que está dado, que é facilmente reconhecido e não é”, diz o historiador e ativista Marcos Tolentino, pesquisador de direitos humanos, gay e HIV positivo. 

Tolentino destaca que, entre a teoria e a prática, é preciso que existam pessoas como a Gleide. “Quais os processos que estão envolvidos na afirmação de um direito, no reconhecimento, em uma demanda por direito? Que é fruto de processos culturais, sociais, mas, principalmente, de processos de articulação de setores da sociedade civil. O Estado não acorda um dia e fala assim: tem um direito aqui que a gente acha que está faltando. Você precisa de toda uma articulação social, é sempre esse processo de articulação social, de possibilidade também de articulação política.”

Nesta segunda (10) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), documento-norma que norteia os direitos humanos básicos elaborados por diferentes países e adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU), completa 70 anos. Para celebrar a data, um grupo de artistas visuais do Recife, do coletivo Mutirão, desenvolveu um projeto no qual os 30 artigos da DUDH são ilustrados em uma ação que pretende divulgá-los ao grande público de maneira mais leve e acessível. O lançamento de um livro contendo todas as ilustrações será na próxima quinta (13), no Bairro do Recife.

O Mutirão nasceu em 2016, idealizado por Celso Hartkopf e Raul Souza. Para este projeto que celebra os 70 anos da DUDH, produzido em parceria com a Revista Continente, o coletivo convidou 30 ilustradores da capital pernambucana e sorteou entre cada um deles um dos artigos da Declaração. A ideia era disseminar o instrumento que apregoa direitos básicos dos cidadãos de todo o mundo - como o direito à liberdade de expressão, à liberdade e à vida, por exemplo - de maneira direta se valendo do poder da imagem e da diversidade de linguagens estéticas dos diferentes artistas.

##RECOMENDA##

As ilustrações foram publicadas no Instagram do Mutirão e em um site; nos quais as obras são seguidas do direito a qual se refere escrito por extenso. Em seu perfil pessoal, Celso, que ilustrou o 24º direito (ao repouso e lazer), comemorou o trabalho: "Estou muito emocionado de ver esse projeto finalmente ganhando o mundo". Os demais artistas que integraram o projeto foram Catarina Dee Jah, Silvano Mello, João Lin, Raul Luna, Clara Moreira, Eduardo Nóbrega, Clara Nogueira, Raul Souza, Hana Luzia, Felipe Vaz, Simone Mendes, Guilherme Moraes, Laura Pascoal, Raoni Assis, Joana Liberal, Isabella Alves, Biarritzzz, Maurício Nunes, Wictor Outro, Ianah, Thales Molina, Clara Simas, Bia Melo, Roger Vieira, Isabela Stampanoni, Priscila Lins, Marília Feldhues, Rodrigo Gafa e Mascaro.

Serviço

Lançamento do catálogo de ilustrações do Mutirão sobre a DUDH

Quinta (13) | 19h

Apolo 235 (Rua do Apolo, 235 - Bairro do Recife)

Gratuito

Leianas redes sociaisAcompanhe-nos!

Facebook

Carregando