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O jaleco branco, estetoscópio pendurado no pescoço, receituário na mão. Esse visual é o sonho de milhares de brasileiros. Se tornar médico é o objetivo de muitos estudantes que, tanto no âmbito privado quanto no público, batalham incansavelmente para serem aprovados nos vestibulares das instituições de ensino.

Os bons salários são um dos aspectos que fazem da graduação de medicina o curso mais procurado nas grandes faculdades e universidades. Além disso, ainda há aquelas pessoas que colocam o “fazer bem ao próximo” por meio das técnicas médicas como o fator primordial para a escolha do curso. E, para quem acredita de verdade na aprovação, não encontrar o nome no “listão” do vestibular pode ser apenas um “empurrão” na busca pela não reprovação.

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“O que eu ouvia, servia de combustível. Já estava com raiva por ter sido reprovado algumas vezes e escutar piada dos outros era o cúmulo. Mas, eu sempre quis medicina e a minha hora chegou”, diz Auremir Ferreira, que por sete vezes foi reprovado no processo seletivo para cursar medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

De fato, a concorrência nos vestibulares é enorme. Na própria UFPE, por exemplo, o Vestibular 2013 teve o curso de medicina como o mais concorrido, com 35 candidatos para uma vaga. Em instituições privadas, a concorrência não é muito diferente. O último vestibular da UNINASSAU – Centro Universitário Maurício de Nassau teve mais de 2,2 mil inscritos concorrendo a 120 vagas. Isso que dizer que 19 pessoas brigaram para uma vaga.

Diante de tanta concorrência, ser aprovado em medicina nas instituições de ensino brasileiras, principalmente as públicas, é um objetivo a ser muito comemorado. Há quem faça robustos investimentos financeiros em cursos preparatórios e aulas de disciplinas isoladas. “Estudei muito mesmo e está aí o resultado. Para passar, você abre mão de muita coisa. Depois da reprovação, ganhei maturidade e graças ao meu esforço fui recompensado. Estou muito feliz”, declarou Gustavo de Oliveira Arouco, quando aprovado em primeiro lugar geral no Vestibular 2013 da Universidade de Pernambuco (UPE).

Curso e mercado

O Ministério da Educação (MEC), no mês passado, elevou a carga horária dos cursos de medicina das redes pública e particular de ensino. Ela passou de seis para oito anos e, a partir do mês de janeiro de 2015, os alunos que ingressarem nos cursos de medicina, deverão cumprir, de forma obrigatória, um período de dois anos na grade curricular, em atividades no Sistema Único de Saúde (SUS).

O mesmo MEC, no dia 31, também de julho, desistiu de aumentar o tempo de curso – que ocorreu por causa do Programa Mais Médicos -, porém, o ministro da educação, Aloizio Mercadante, indicou um posicionamento para o ano de 2008. Mercadante defendeu que a residência médica se torne obrigatória ao final dos seis anos de graduação, para determinadas atividades de medicina. Nesse contexto, toda a residência será realizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Obrigatoriamente, o primeiro ano será feito na atenção básica, emergência no sistema e urgência.

Na graduação, os estudantes passam inicialmente por disciplinas bases. De acordo com o coordenador do curso de medicina da UNINASSAU, Cláudio Lacerda (à esquerda da foto), na maioria das vezes, o aluno que ingressa na graduação não sabe ao certo qual especialidade vai seguir. “Ao longo do curso, quando eles entram em contato com as disciplinas específicas, eles começam a idealizar o que querem seguir de fato”, comenta Lacerda.

Fisiologia, bioquímica, anatomia de bioquímica são algumas das áreas que norteiam o início da formação dos futuros médicos. Porém, é partir do quinto período que os universitários começam a entender mais claramente as partes específicas do curso. “Não existem diferenças entre os cursos médicos. Todo mundo aprende os mesmos assuntos. Só na residência médica é que existem diferenciações de áreas de atuação”, explica o coordenador.

Lacerda opina que a residência médica é extremamente importante para a formação dos médicos. É nela onde são formados os cirurgiões gerais, dermatologistas, pediatras, cardiologistas, entre outros. “A residência médica é essencialmente prática. Os alunos têm a prática em tempo integral, passando por vários setores dos hospitais e cuidando dos pacientes”, destaca o profissional.

Pedro Ivo Padilha, de 26 anos, está bem próximo da residência. O rapaz cursa o nono ano de medicina na Universidade de Pernambuco (UPE) e afirma ter adquirido uma formação especial com a graduação. “É um curso bem amplo. Não é uma graduação voltada apenas para a doença. Você sempre tem contato com o povo, abrangendo diversos aspectos, como economia, política, religião. Ganhei uma experiência de mundo muito grande”, conta Padilha, que quer se tornar um mastologista.

De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil soma hoje quase 378 mil médicos. Segundo a Federação Nacional dos Médicos (FENAM), o atual piso salarial para a categoria, levando em consideração 20 horas semanais, é de R$ 10.412. 

Célia Maria de 25 anos e seu marido, Edivaldo José da Silva (35), deram entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Caxangá por volta das 6h, após terem viajado mais de 2 horas – saindo do município de Aliança, localizado na Zona da Mata Norte. Em sua cidade natal, o casal não conseguiu obter nenhum tipo de atendimento médico por falta de profissionais. 

Baseado no cotidiano das pessoas que utiliza o serviço de saúde pública, o Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN) realizou uma análise onde a população opinou sobre a qualidade de atendimento das Unidades de Pronto Atendimento (UPA), hospitais públicos e avaliaram os profissionais de saúde.

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Segundo a pesquisa, quase 70% dos entrevistados já utilizaram um hospital público, Policlínicas ou Upas. Desse percentual, cerca de 50% das pessoas passaram entre 40 minutos à 2 horas para serem atendidos. Ao avaliarem a qualidade do atendimento, aproximadamente 40% consideram ruim ou péssimo. 

Célia e Edivaldo explicaram que ao chegar à unidade, eles esperaram cerca de meia hora para passarem apenas pela triagem. “Minha esposa chegou aqui com muita dor e ainda tivemos que realizar vários procedimentos, primeiro é a triagem e depois você ainda espera muito para fazer o cadastro. Depois disso, esperamos 2 horas para que Célia fosse atendida pelo médico.”

Após ter sido atendida pelo clínico, Célia foi encaminhada para a sala de medicamentos e ficou em observação. “O médico passou um remédio pra tirar a dor e depois de 2 horas ela voltou a sentir dor e tomou remédio outra vez, mas isso não melhorou. O médico disse que já não sabia o que ela tinha e queria ouvir uma segunda opinião”, explicou Edivaldo.

A jovem explicou que apesar do médico ter tratado bem, ela acredita que falta mais preparação, pois ele não realizou um diagnóstico preciso. “O médico foi muito gentil comigo, mas vou ter que passar por outra avaliação, lá no outro hospital. O que realmente mais me incomoda é a demora e a falta de espaço, não tivemos nem como nos alimentar, é muito descaso com as pessoas.”, pontuou.

O casal recebeu um encaminhamento e seriam transferidos para o Hospital Osvaldo Cruz ou o Otávio de Freitas, entretanto, como eles não tinham como se transportar, tiveram que aguardar a chegada de uma ambulância. “Já são 17h30 e não tem um carro pra levar minha esposa pra o outro hospital. O médico que atendeu ela já foi embora e o outro não chegou e ninguém sabe o que fazer. Eu vim pra Recife num carro alugado e nós não temos mais condições de pagar outro, teremos que esperar a ambulância.” 

De acordo com a análise do IPMN, mais de 50% das pessoas utilizam o serviço de transporte público para irem aos hospitais. Em uma avaliação geral sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), 49% dos usuários consideraram atendimento ruim ou péssimo.

Ao visitar a UPA da Caxangá, a equipe de reportagem do LeiaJá identificou os problemas relatados por Célia Maria e Edivaldo José e de todos os outros pacientes que contaram sobre o atendimento do local:

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Mensalidades caras, taxas de serviços e oscilação do valor após determinado tempo. Os planos de saúde, sejam empresariais ou individuais, podem ser uma “mão na roda” na hora do aperto, mas quem possui não deseja ter a necessidade de usar. Após assinarem o contrato, os beneficários esperam não ser mal atendidos ou enfrentar filas longas, entretanto, os hospitais que fazem parte da rede do plano nem sempre garantem uma estadia com um mínimo de conforto necessário.

De acordo com o levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Maurício e Nassau, no Recife um pouco mais de 30% da população possui plano de saúde, um número inferior comparado as pessoas que utilizam do Sistema Único de Saúde (SUS), 66,9%.  Dentro dessa minoria está a estudante de jornalismo, Mariana Frazão, de 23 anos, que se acidentou quando estava trabalhando, fraturando o olecrano, mais conhecido como cotovelo, em duas partes. A vítima esperou duas semanas para poder entrar no bloco cirúrgico, correndo riscos maiores do que a própria fratura.

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“Se em 15 dias eu não fizesse a cirurgia corria o risco de perder o movimento do braço, porque quebrou justamente a liga que permite ele esticar e dobrar. Quando eu cheguei ao primeiro hospital, eles informaram que era necessário pegar uma autorização com o plano de saúde, já os representantes do plano disseram que era o hospital que tinha que fazer isso. Uma semana depois nesse ‘passinho da ema’ o hospital resolveu me internar, depois disso foi mais uma semana internada e sem autorização”, explicou.

O plano de saúde de Frazão é do tipo empresarial, custa em torno de R$ 100 a R$ 150 por mês, que dá direito aos melhores hospitais da cidade e apartamento para apenas um paciente com acompanhante. “Pagamos uma fortuna por eles e quando vai marcar médicos, cadê? Só para o ano que vem”, desabafou. “Para cada especialidade só tem, no máximo, três médicos disponíveis e quando a pessoa precisa para um caso urgente é uma vergonha na hora do atendimento”, afirmou.

Mariana nunca utilizou os serviços da saúde pública como policlínicas ou Unidades de Pronto Atendimento (UPA), mas acredita que não encontraria um melhor cenário. “Deveriam primeiro ajeitar os hospitais porque muitas vezes o médico está disposto, mas não tem muito que fazer devido a falta materiais”, opinou a estudante, que deu o Hospital da Restauração como exemplo. “Você chega ao HR precisando fazer uma cirurgia e não tem os materiais necessários, o médico falta o trabalho. Acho que o problema vai além da questão de novos médicos”, informou. Assim como ela, cerca de 70% das pessoas que possui plano de saúde nunca foram atendidos pelo SUS.

Diferente da estudante, o empresário Wagner Aleixo, de 27, possui plano de saúde, mas já precisou ser atendido por hospitais públicos. “O atendimento desses locais não é bom, a espera é enorme e as vezes você fica um tempo grande para ser atendido e no final das contas o médico não está no local”, contou. Já o aposentado Renato Dallurto, de 64 anos, é pai da advogada Rafaela Campos, 32, que esta internada em um das unidades privadas de referência do estado, o Hospital Santa Joana. Para ele, ter um plano de saúde é essencial principalmente em situações em que a sua filha se encontra. “Ela está grávida, então o atendimento tem que ser muito bom, e a unidade não deixa a desejar, é limpo, as pessoas são atenciosas e bem educadas”, afirmou ele.

Wagner é morador de Campinas, no estado de São Paulo, e contou que vai com frequência ao médico, fazer o famoso check-up. “O meu plano me satisfaz plenamente, posso fazer quantas consultas necessárias, mas geralmente faço tudo de uma vez só no ano. Mas se eu precisar ir outras vezes em caso de emergência, como já aconteceu, levo a minha carteirinha e sou atendido na hora”, disse.  A mensalidade do plano de saúde do aposentado custa R$ 600 reais, com quarto coletivo. Porém, Renato nunca passou nenhum estresse e se mostra satisfeito. “Se eu fosse pagar por fora todos os médicos que eu utilizo, mesmo sendo uma vez ao ano, sairia muito mais caro”, concluiu. 

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